sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

HISTORIAS SOBRE O MONGE DA LAPA- JOÃO MARIA (1ª PARTE )

http://www.astrovates.com.br/conto/joaomari.htm

Noel Nascimento

PARTE-I

João Maria voltara à gruta para esquecer os horrores da guerra. A gruta tornara-se um pouso na sua caminhada sem fim. O que sofrera com seu povo, dizia que não fora em vão. Guiara à luta os mais valentes do sertão. Seguindo-lhe a bandeira branca com um pombo vermelho ao centro, armados de facões e algumas espingardas, os camponeses atiravam-se contra as tropas legalistas, destroçando-as. Depois socorreu muita gente porque nos vilarejos só havia feridos, órfãos e viúvas. Soldados semi-loucos vagavam pelas matas. Um deles, que sobrou das tropas de Juca Tigre, também virou monge nos campos de Palmas.
Depois daquela terrível guerra civil viera a desolação e ainda vingavam ódios, ressentimentos. Pica-paus e maragatos continuavam inimigos, e uns atribuíam aos outros os atos de banditismo. Muitos camponeses diziam que os pica-paus estavam se transformando em “miseráveis”.
João Maria ainda não acreditava na vitória dos pica-paus, que trucidavam os prisioneiros, degolando-os, fuzilando-os pelas costas. Os maragatos, que usavam um ramo de vassourinhas no chapéu para vencer as batalhas, haveriam de restaurar a monarquia. Recusava-se a crer na morte do compadre Gumercindo Saraiva e de outros chefes rebeldes, dizendo que voltariam com a Armada e um exército de anjos pela frente.
Um outro velhinho, o Agostini, morara antes dele na gruta, mas não fizera guerra, nem história, só folclore, fora mais um tipo de frade e não propriamente tudo que se entende por monge.
Monge não é frade, nem faz parte de ordem religiosa. O frade não acredita no fim do mundo, não prepara o povo para a guerra, não comanda uma batalha. Monge tem de pregar renúncia e fanatismo, anunciar castigos, tempestades, epidemias, praga de cobras e gafanhotos, salvar da vida de misérias o povo do mato, povo da Casa Verde.
A história de monge começou quando os antigos moradores de Curitiba inventaram que São Francisco apareceu na figura de um monge para apaziguar os negros aquilombados no Morro dos Enforcados. Na figura do monge, e ele é João Maria, projetou-se a plebe do campo, vagando pelos caminhos do latifúndio. Só João Maria polariza a devoção popular. No folhetim “A Vida de João Maria de Jesus”, que corria de mão em mão, dizia que ele fora Johana Ieshona, nascera na Galiléia e tivera a visão de Paulo o Apostolo. Mas um major reformado afirmava, nos cafes de Lages, que o monge não passava de espião argentino a fazer o levantamento da região sul-brasileira. E um general pica-pau descobriu que João Maria já se chamara Anastás Marcaf. Outro militar, o major Domingos, um dos comandantes da defesa da Lapa, escreveu: “Este cenobita, um velho rijo e seco, anda há quarenta anos perambulando por aquelas passagens. Fura o sertão até a Lagoa Vermelha; de lá corta os campos de Palmas; vai ao Tibagi, vence as florestas e as montanhas dos Agudos; interna-se no Paranapanema; faz lá os seus milagres, as suas prédicas, as suas orações: dá seus bons conselhos, e retorna derivando para as margens do Iguaçu, Jangada e não sei por onde mais. Andarilho de primeira, erra por montes e vales, andrajoso e esquálido, com um bastão apenas por arma. Não há insetos que lhe mordam as carnes, nem feras que lhe moam os ossos”.
Acomodara-se na gruta onde, à tardezinha, projeta-se a sombra de Santo Antônio, santo que apareceu inteirinho numa fotografia. No mosteiro que é a serra – a natureza ascética – via os pinheiros como se fossem vultos penitentes de braços estirados.
- Santo não come.
De cócoras, chuchurreava o chimarrão três vezes ao dia. Seu olhar parecia o céu sobre a Casa Verde, e seus pensamentos perdiam-se no alto com a fumaça fedorenta do pito de bambu. Se faltava o fumo, cachimbava folhas secas. Sob os olhos azuis a barba branca era uma bandeira de paz desfraldada no rosto.
Todo mundo sabia de onde vinha:
- João Maria é um enviado do céu.
No pequenino oratório guardava uma bandeira do Divino Espírito Santo, outra de Santa Trindade de Deus, e o crucifixo com um Cristo de marfim. Abria-o na hora em que os pobres iam rezar lá na gruta, enquanto os ricos compareciam à missa de frei Silvério.
Se os curiosos perguntavam quem era, tinha a resposta pronta na língua:
- Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença.
A gruta era apenas mais um pouso no seu caminho. Mas para ser monge é preciso libertar-se de sentimentos egoísticos e desligar-se dos males terrenos. Lembrava-se muito bem de sua iniciação, daquelas noites borrifadas de estrelas. A cigarra silenciava cedo com a passarada. No ruído dos insetos e das aves noturnas destacavam-se o coaxar dos sapos, o uivo do noitebó, o crocitar pressago da coruja e o zumbido dos mosquitos. Tinha alucinações, confundia vaga-lumes com duendes e ouvia urros de fantasmas. Visões explodiam em gargalhadas, num alarido de imprecações e zombaria. Mas saíra vitorioso na luta contra os demônios e o seu eu pregresso. Num sonho, o anjo lhe dissera: “Vá, João Maria. Caminhe pelo mundo e cumpra sua missão sagrada. É preciso salvar a humanidade pecadora”.
O frio açoitava-o nas noites de inverno. Passava-as em claro, encolhido, aquecendo-se ao braseiro, sufocado pela fumaça. No entanto, era crença que suas mãos paralisavam a tempestade, que manobravam os céus. Para livrar-se da água das chuvas e do ataque das feras, fincava três varas no chão, formando um triângulo dentro do qual dormia tranqüilo. Vencia as febres com chá de ervas. Nunca fora picado por serpentes ou colhido pelo jaguar. Ao pressentir o perigo, punha o crucifixo entre as mãos e repetia três vezes: “São Bento, São Bento, me livre desse bicho peçonhento”.
- Santo não morre.
Se passava a pito e chimarrão, poucas vezes lhe faltavam pinhão, mel e verdura. Bem que se lambia ao tomar café com leite e bolinhos de trigo que lhe davam nas fazendas. “Velhinho comilão, roedor de queijo”, - caçoava um boticário. João Maria não rejeitava queijo, leite, manteiga, ovos, hortaliças, mate e fumo.
Além de comprometido com a gente sertaneja, não continha a ânsia de perambular. Abrenhou-se sertão adentro, e o sertão é a Casa Verde, soalho de relvas, tetos no céu. Nela – dizia – os homens devem abrigar-se contra a miséria e os horrores da guerra, porque a Casa Verde está sob sua proteção. Tinha a Casa Verde na mão, a Mãe-Terra, as matas e seus mistérios. Aguardavam-no em toda parte e não podia faltar à festa de inauguração do povoado de São Sebastião das Perdizes, o maior acontecimento da Casa Verde, para o qual fora convidado pelo compadre Rocha Alves, antigo chefe maragato.
Ao mesmo tempo, João Maria  era visto em lugares diversos. Na Casa Verde parece que o tempo não passa. O sol – seu relógio – caminha vagarosamente, monge no céu. Faz sempre a mesma trajetória, mas dá a impressão de não sair do lugar. O antes, o durante e o depois confundem-se na Casa Verde.
O velhinho descera a serra fugindo às romarias. Bagagem pouca, mochila à cacunda e bornal a tiracolo. Do cinto de couro cru pendiam a marmita de folha, guampa, cuia e uma bomba de prata. As roupas puídas no corpo esguio. A manta carcomida envolvendo-lhe o pescoço, o gorro de jaguatirica à cabeça. O paletó de brim xadrez a prender-lhe os movimentos. Um longo rosário cujas contas afirmava ser “as lágrimas de Nossa Senhora”. As calças de fundilhos rotos deixavam entrever as ceroulas e o sexo, o que levara uma beata a exclamar: “nunca vi santo com as vergonhas de fora!”.
Com ar avoengo, cabelos como crisanto, as barbas de algodão – leque aberto para baixo, à luz de fogueiras, comandava terços e ave-marias. Sagrava as fontes, debelava epidemias com chá de vassourinhas, celebrava batizados e casamentos, benzia o gado e as roças, fazia vaticínios e sumia no horizonte. Fantasma de carne e osso, mais real que as iaras, os sacis, os boitatás e outros seres encantados da floresta. João Maria era reflexo dos pobres do campo que viam nele a projeção do eu interior. Andarilho onde a prole do agregado se transformava em intrusos e vagabundos, furava o mato, abria o caminho, onça com duas patas no pés e outras duas no bordão. Dormia nas ramadas das fazendas ou no pouso debaixo da árvore margeando o olho de água.
Em Canoinhas, que diziam ser “a sua oficina”, refúgio de maragatos que fugiam à degola, o povo vivia muito agitado. No Morro da Cruz foram visitá-lo Aleixo, Tavares e Bonifácio Papudo, antigos chefes rebeldes, enquanto uma comissão de fazendeiros, estes pica-paus, dirigiu-se a Curitibanos para pedir proteção ao mandachuva Francisco Albuquerque contra “os bandidos que infestavam Canoinhas”.
Pouco a pouco os que haviam sido maragatos eram considerados “bandidos” pelos pica-paus, e estes “miseráveis” pelos maragatos.
Quanto João Maria não atacava os pica-paus, suas prédicas semelhavam a de Marrecas, pouso de arrieiros, vilinha de rústicos casebres cobertos de tabuinhas com quintais cercados de pau bruto. Ali a besta da ponta chegava batendo guizos e campainhas presas à coleira, alteando na cargalha a flâmula branca. Marrecas era cruzada pelos cargueiros carregados de sal, açúcar, rapadura, cana e frutas. Ele descera uma serra inacessível e chegara por uma vereda. Mochila às costas, segurava pela alça o oratório, apoiando-se ao bordão. Perto de um ranchinho, sob árvores à beira do arroio, armou a barraquinha. Tropeiros e moradores do lugarejo abancaram-se nos calcanhares e nas saliências do chão para ouvi-lo.
“- Quem é vancê? E donde vem?
- Sou um filho de Deus e um pobre pecador. Venho de tão longe, que ninguém chega lá. Faço penitência e dou aviso ao mundo. Tempos virão em que os homens vão se destruir como feras. Nações contra nações, irmãos contra irmãos, inveja, roubo e morte em toda parte. Nas cidades só há ambição e hipocrisia. Os filhos da mata precisam ficar na Casa Verde, de onde será ouvido o troar do canhão na grande guerra universal.
- Como pode vancê vir por essa picada que só vem dar no rancho e por lá não vai noutro caminho?
- Não tenho caminhos. Viajo com Deus. Quando canso, paro; se tenho fome, como.
- Vancê não tem medo dos bichos brabos do mato?
- Não me fazem mal porque jamais matei um ser vivente.
- É pecado matar um tigre? Se ele nos persegue?
- O tigre só ataca quem tem medo. No coração do pecador mora um outro tigre: o ódio. É uma fera atacando outra fera. Por enquanto, plantem vegetais e frutas, pois os climas vão mudar as matas e até os bichos se acabarão por causa da maldade dos homens. Ainda vou mandar muitos monges para salvar os meus povos. É crime viver juntando dinheiro a dinheiro, terras a terras, à custa do trabalho alheio. A lei de rei foi escrita no céu e é a lei de Deus.”
Numa vilinha de tarefeiros de erva-mate, formou a roda de chimarrão. Chimarrão quem inventou foi o índio Jaguaretê que teve uma longa vida após ter sido expulso da tribo por causa de um amor impossível. Agora, muitos bugres vivem no cativeiro do chimarrão, abrem picadas com os facões e podam os arbustos, caminham com os pés feridos na floresta, enfrentando o bote das feras, a picada da serpente. Ao sapecarem as folhas no carijo ou no barbaquá, queimam a pele, deformam as mãos calejadas. Carregam nas costas enormes fardos, presos à cabeça por tiras de couro que rasgam a fronte. Acocoravam-se, as caras de cobre a reluzirem. Entre as cuiadas quentes, João Maria receitava: banho de arnica, samambaia, três cipós, capim-papuã, ou vinho-de-braúna, sangue de bituíba, chá de marapuana, pacová, crista-de-galo e cidreira.
Enquanto havia a mata, a Casa verde, João Maria acordava com a passarada e assistia à dança dos tangarás, lembrando-se da lenda dos filhos do Chico Santos. O mestre, um dos passarinhos de asas azuis, trinava no ramo mais alto, enquanto o bando ouvia atento como os musicistas que observam a batuta do regente. Quando calava o biquinho, o bando rompia num gorjeio orfeônico de passarinhos. Após rápido intervalo, as avezinhas – nacos do céu – alçavam-se em saltinhos de duas em duas, dando início ao bailado. Ao recomeçar o canto, o mestre dançava de galho em galho, enquanto os demais voavam uns por cimas dos outros, inventando a coreografia. Segundo a crença, Chico Santos, temente a Deus, advertia os filhos: “não presta viver só namorando, festando, pulando como saci, sem o menor respeito pela Quaresma e os dias santificados”. Os marotos não perdiam fandango, eram sete irmãos, e o mais velho batizou o mais novo para este não virar lobisomem. Porque farrearam na Quaresma, na Semana Santa, na própria Sexta-Feira da Paixão, caíram de cama, os sete com bexiga e – pobre do Chico Santos! – um a um ia morrendo e virando tangará.
Tudo João Maria via na Casa Verde. Crianças com o corpo tomado por bicho-de-pé ou carrapatos, levas de leprosos que percorriam os sertões sem entrar nos povoados. Após os curativos e benzeduras, tinha por hábito mandar que rezassem em jejum e com o rosto voltado para o norte. A um que chegara a cavalo, dissera:
- Perdôo os pecados, mas tem de rezar cinqüenta ave-marias e cinqüenta padre-nossos sem tirar a boca do chão.



HISTORIAS SOBRE O MONGE DA LAPA- JOÃO MARIA (PARTE II )

PARTE-II

João Maria, suas lendas e suas profecias corriam o mundo.
Maricota, muito cainha, estava fritando cheirosa lingüiça quando João Maria apareceu à porta da casa:
- Estou com fome. Você pode me dar um tiquinho de angu com lingüiça?
- Lingüiça não tem... – mentiu, sovinando.
- É verdade, você não tem mesmo lingüiça.
Ao voltar à cozinha, Maricota encontrou uma porção de cobrinhas agitadas na frigideira que deixara sobre o fogão.
À beira do arroio, as mulheres lavavam as roupas.
João Maria passou e perguntou à mais pobre:
- Lavando umas roupinhas?
- Sim. Lavando seda.
João Maria passou e perguntou a mais rica:
- Lavando umas roupinhas?
- Sim. Lavando uns trapinhos.
Quando as roupas foram estendidas ao sol, os trapinhos da mais pobre viraram seda, enquanto a seda da mais rica virou trapo.
Uma dona foi levar-lhe uma galinha preta, mas correu tanto no terreiro para apanhá-la, que exclamou: “galinha do diabo!”
João Maria disse que não podia aceitar a oferta porque a ave já era do demo.
Ao morador de uma casa, no meio da qual havia um cedro, João Maria falara:
- Essa árvore ainda vai ser a sua salvação.
Foi compreendido vinte anos depois, quando um raio caiu sobre a casa e, sorvido pelo cedro, salvou-se por milagre a família.
Frei Silvério não quis batizar uma criança porque a mãe não podia pagar pelo ofício. João Maria deu a esta uma nota de cinco mil-réis para pagar a frei Silvério que, após o sacramento, viu desaparecer o dinheiro da palma da mão.
Os povoados em que fora maltratado, João Maria disse que iriam “rodar para trás” e, de fato, foram sumindo. Antevira: “um dia, Curitibanos vai se tornar tapera”; “a cidade de Lages sofrerá uma praga de borrachudos”.
Com muita fé, uma família andou léguas e léguas para buscar água numa fonte sagrada, com a qual encheu uma barrica. Na manhã do outro dia, a barrica estava até a boca de vinho em que se transformara a água.
Uma parturiente desobedeceu a João Maria, quando este mandou que assoprasse uma garrafa e colocasse na cabeça o chapéu do marido. Desacreditado, tocaram-no do quarto.
Pobre mãe, louca mãe: a criança nasceu com duas guampa na testa!
Uma cabocla pediu ao marido:
- Perciso pagá uma promessa. Me leve esse pacote de vela pro João Maria.
- Levo pro diabo.
De má vontade, o malcriado se foi com o embrulho sentindo-lhe o peso e o volume sob o braço. Mas ao dar de chofre com João Maria, teve um prisco: havia perdido o pacote. E ouviu a explicação:
- Ficou para quem você disse que ia levar...
A família que comprou uma fazenda mandou atear fogo ao cruzeiro que João Maria erigira. Então perdeu o gado, as colheitas e deu origem a uma estirpe de loucos.
Emprestaram-lhe um cavalo trôpego e este começou a caminhar sem mancar.
Um fotógrafo que bateu duas chapas do Velhinho sem pedir-lhe consentimento, ao revelá-las... – estavam em branco!
João Maria surgia e sumia de súbito. Viam-no em diversos lugares ao mesmo tempo. Caminhava sobre as águas dos rios, dispensava as balsas para atravessá-los.
Quando a polícia quis prendê-lo sob a acusação de que pregava a anarquia entre o operariado, evaporou-se no ar.
Um sujeito vivia troçando das cousas sagradas e dizia: “nóis não sabe lê nem escrevê, e os ricos fais nóis de bobos; morreu, fedeu”.
Ao partir lenha no mato, foi morto por um raio.
Num domingo de farto almoço, um fazendeiro não deixou João Maria entrar em sua casa e mandou que lhe dessem um prato “lá fora”. Na mesma hora, engasgou-se com um osso de galinha. Se não fosse João Maria pousar-lhe as mãos sobre os ombros, poderia ter morrido.
Uma cruz mudava de Mafra para o Rio Negro, ora de Rio Negro para Mafra. E nos braços de outra que plantara no topo de colina, brotaram flores.
A mulher que lhe negou um pouco de erva para o chimarrão viu-a transformada em cinzas na barrica. Não foram poucos os que por negarem queijo a João Maria ou por maltratá-lo ficaram pobres. Por não crerem, muitos fazendeiros se arruinaram, “miseráveis”.
Cumpriram-se as profecias e, agora, é só aguardar o fim do mundo.
Anunciara a queda o Império, mas abominava a traição dos ministérios, dizendo que os “bons tempos do Império” seriam sempre lembrados, depois que os soldados implantassem o “governo do diabo”. E acrescentava: “durante seis anos vão rebentar as bombas”. Noutra vez, reafirmara: “o rio Cavernoso vai dar sangue pelas canelas”. E sentenciou: “quando derrubarem a Casa Verde virão grandes enchentes como castigo”.
Onde fica a Árvore Santa, apregoara:
- A igreja não cumpre mais a vontade e a palavra de Deus. A missa é rezada por dinheiro, em língua estrangeira. Os padres não batizam o pobre que não pode pagar. O castigo vem chegando pelo fogo do inferno.
Em conseqüência, a Catedral de Guarapuava foi destruída por um incêndio. E por muito tempo a cidade deu crédito ao anúncio de outra tragédia: “no fundo do Lago surgirá um monstro que devorará a cidade”.
Em Ponta Grossa, encastelada nas colinas do rio Pitangui, fora apedrejado e amaldiçoara:
- Vai chover uma chuva de pedras em Ponta Grossa.
Nesse dia, a casa do Homem do Banquinho sumiu do mapa.
Previra o avião:
- Ouço o ronco de pássaros de ferro no ar.
Numa da vezes em que fora visto na aldeia à beira-rio, prevenira:
- Vocês rezem muito e façam atos de compunção porque vai haver um grande desastre nas maretas.
Era a hora da partida dos balseiros, em meio ao vivório e estampidos de armas de fogo. Depois a notícia de que, numa curva estreita do rio, os ladrões de vigas mataram três balseiros a tiros de espingarda e, no Salto Grande, morreram seis homens numa jangada.
Numa de suas últimas prédicas, atacando os pica-paus e a República, deu a notícia:
- Outro monge virá continuar a minha guerra.
No entanto, era para livrar o povo dos males “da peste, da fome e da guerra”, que erigia as cruzes. Nos diversos lugares onde fazia aparição, as populações levantavam dinheiro, construíam capelas nas quais ardem velas dias e noites, pagando promessas, ao lado de, pilhas de muletas. Foram difundidas suas práticas, suas receitas, suas simpatias, suas benzeduras. Pouca gente não sabia que sarro de pito é bom para bicho-de-pé, inflamações e mordedura de cobra. Neste caso, mandava manter o pé na terra molhada e tomar seis goles de limão. Até um perna-de-pau correra ao encontro de João Maria, pensando em recuperar o membro decepado na guerra do Paraguai.

HISTORIAS SOBRE O MONGE DA LAPA- JOÃO MARIA- ( PARTE III )

PARTE-III

Nas sesmarias do Bituruna, o Velhinho causava assombro. Aguardavam-no ansiosamente para a festa de inauguração de São Sebastião das Perdizes, uma cidade santa. Rocha Alves, seu amigo e compadre mais influente, queria edificá-la sob suas bênçãos, e João Maria não se opunha ao convite feito a frei Silvério para rezar a primeira missa.
Frei Silvério, que acudira o apelo do Papa, emigrando para o Brasil, onde faltavam sacerdotes, sofrera concorrência de João Maria na Lapa e agora voltava a perturbar-se em Campos Novos. Quando as coisas começam bem para a Igreja, “surgia aquele monge a virar a cabeça do povo”. A fé do povo na Igreja ficava abalada e até o Bispo se voltava contra ele que, justamente por sua incrível vocação sacerdotal, fora designado para restaurar o prestígio católico. De cidade em cidade, solapava o culto do monge. Logo iria para a União da Vitória onde havia o Morro da Cruz, além das inocentes festas de Sinhana Bita. O fato é que ninguém mais comparecia à missa, trocando-a pelas rezas de um remendão. Mas as taperas que abrigavam João Maria transbordavam de adeptos. Sentado à moda hindu sobre um couro de boi, num tugúrio distante, já o fizera de tolo quando lhe fora ao encontro em seu burrico. João Maria que – segundo ele – não podia ser santo porque não cursara o convento, tachou-o de maçom e protestante, combatendo-o com suas próprias armas. Disse-lhe quem era e de onde vinha:
- “Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires e faz onze anos que tive um sonho que eu devia caminhar pelo mundo durante quatorze anos, sem comer carne nas quartas, sexta-feiras e nem pousar na casa de ninguém.”
Agora, o louro capuchinho exultara com o convite de Rocha Alves – um dos grandes maragatos – porque sabia que João Maria não voltava mais.

HISTORIAS SOBRE O MONGE DA LAPA- JOÃO MARIA (PARTE IV)





PARTE-IV

Jesus dos campos, João Maria era o ar, a vida, a esperança dos oprimidos.
- A lei dos pobres é a sua lei.
Padrinho do povo da Cada Verde, as cruzes que arvorara nos topes dos morros são os seus braços abertos para os sofredores.
Desejava rever os velhos companheiros das batalhas, os compadres, os amigos e os afilhados, mas não estaria de corpo presente na inauguração de São Sebastião das Perdizes. Havia vaticinado:
- Meu túmulo será cavado pelos índios no cerro do Taió.
O Taió parece um casarão de pedra, e lá dizem que João Maria ficou encantado. Com certeza, não foi vítima de febres ou de feras, nem sumiu no bico dos corvos.
No jornal “A República”, órgão do Partido Republicano Paranaense, edição de 25 de Setembro de 1.912, na terceira página, com a fotografia de um mendigo, havia um artigo:
“PROFETA QUE MORRE...
O “monge” João Maria passou desta para melhor.
Assim concluía a notícia:
“Por muitos anos há de perdurar ali a tradição dessa figura venerável do apóstolo, longos cabelos e barbas prateadas a emoldurarem um rosto velho, mas de expressão ainda viva, fisionomia de faquir a surgir em todas as portas, a visitar todos os lares.”
Mas João Maria foi enterrado pelo sucessor, o que é muito provável. Pois este herdou-lhe a missão, o gorro de jaguatirica, as roupas, o bordão, o oratório, os poucos pertences. Intitulava-se irmão e dizia chamar-se José Maria, confundindo o povo. Era o monge da nova guerra, da guerra do Contestado.
No entanto, santo não morre. João Maria protege a Casa Verde. Guiado pelo bordão inseparável, vagueia nas veredas da História.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

OMS preocupada com narcolepsia em crianças vacinadas contra H1N1

http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/02/oms-preocupada-com-narcolepsia

Ocorrência da doença neurológica quase triplicou na Finlândia desde 2009.
Ainda são necessários estudos para comprovar a relação.

Da France Presse
BDBR_vacina_H1N1 (Foto: Bom Dia Brasil) Vacina contra H1N1 pode ter relação com casos de
narcolepsia (Foto: Arquivo)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que precisa investigar de maneira mais detalhada o aumento do risco de narcolepsia entre as crianças vacinadas contra o vírus da gripe H1N1, observado em vários países.
"Desde agosto de 2010, depois de uma vacinação ampla contra a gripe H1N1 de 2009, constatamos casos de narcolepsia, em particular entre as crianças e adolescentes, em pelo menos 12 países", explica a OMS em um comunicado.
Os casos foram mais frequentes na Suécia, Finlândia e Islândia, segundo a organização, que fez o anúncio uma semana depois das autoridades finlandesas terem revelado suspeitas de que a vacina Pandemrix do laboratório GlaxoSmithKline (GSK) teria contribuído para a multiplicação súbita de casos de narcolepsia entre crianças e adolescentes do país em 2009 e 2010.
O Instituto Nacional Finlandês para a Saúde (THL) reconheceu que eram necessários estudos mais profundos para comprovar a suspeita, mas completou que "a associação observada era tão evidente que seria improvável que outros fatores, ditos colaterais, pudessem explicar o fenômeno".
A narcolepsia, ou doença de Gélineau, é um problema neurológico pouco comum que consiste em ataques de sono irresistíveis que acontecem de repente e com um cansaço extremo.
Em 2009-2010, os médicos finlandeses diagnosticaram casos de narcolepsia em 60 crianças e adolescente com idades entre quatro e 19 anos, o que representa um número quase três vezes maior que nos dois anos anteriores.
Em quase 90% dos casos (52), as crianças foram vacinadas com o Pandemrix, que foi injetado em mais de 90 milhões de pessoas em 19 países durante a campanha de vacinação contra a gripe H1N1, segundo o THL.
O Comitê de Consulta sobre a Segurança das Vacinas (GACVS) da OMS estudou a questão e considerou que é necessário executar novas investigações a nível global.
"O Comitê concordou que são justificadas investigações mais avanças sobre a narcolepsia e a vacinação contra a gripe H1N1 com Pandemrix e outras vacinas contra o vírus declarado a primeira pandemia do século em junho de 2009", explica o comunicado da OMS.
A questão não afeta, segundo a agência da ONU, as vacinas clássicas contra a gripe comum ou outras doenças utilizadas no passado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Região Serrana: Saúde cadastra voluntários






Região Serrana: Saúde cadastra voluntários
2/2/2011 - 16h35
Já são 110 profissionais de diversas áreas atuando Por Ascom da Secretaria de Saúde
Diante da maior catástrofe natural já registrada no país, voluntários se mobilizam para levar um pouco de esperança a pessoas que, aos poucos, se recuperam do trauma enfrentado. A solidariedade vem atingindo grandes proporções e pessoas de todos os cantos do país viajam para a Região Serrana para contribuir de diversas maneiras: seja recolhendo e transportando donativos, seja percorrendo abrigos e identificando as necessidades das vítimas, seja prestando atendimento básico aos desabrigados.
A Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil (Sesdec), por meio da Subsecretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), está organizando a oferta de profissionais voluntários para atuarem nas regiões afetadas. Representantes da subsecretaria estiveram, pessoalmente, em Nova Friburgo e em Teresópolis, em várias datas a partir de 12 de janeiro, dia seguinte à tragédia, para levantar a demanda. No período, ocorreram reuniões com representantes das Secretarias Municipais de Saúde, do Ministério da Saúde, do Ministério Público, do Corpo de Bombeiros Militar e da Polícia Militar, para identificar as principais necessidades das vítimas.
- Diante da solidariedade por parte da população, que, desde o início, está se mobilizando para ajudar as vítimas da tragédia da maneira que pode, a secretaria de Saúde e Defesa Civil decidiu organizar este trabalho. Inicialmente, nossas ações estavam focadas em instituições, com o objetivo de apoiar os municípios na formação de equipes multiprofissionais itinerantes para atendimento nos abrigos. Agora, com a disponibilização do formulário on-line, será possível acolher esses candidatos individualmente e encaminhá-los aos municípios, que continuarão responsáveis pelo contato final - esclarece o subsecretário de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, coronel Sylvio Jorge.
Mas não foi somente a demanda por profissionais de Saúde que chamou a atenção dos profissionais da SGTES. A Coordenadora de Educação na Saúde, Andréa Mello, relata que, ao longo das visitas, foi observado que crianças e adolescentes que perderam tudo nas enchentes e deslizamentos não realizavam nenhum tipo de atividade nos abrigos. Foi aí que, em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a secretarai de Saúde resolveu incentivar o cadastramento de profissionais de outras áreas.
- A maioria das crianças que estavam nos abrigos perdeu todos os brinquedos e não tem à disposição nenhum tipo de programação. Então, a ideia é que esses profissionais realizem, junto a este público, atividades de recreação e entretenimento -, explica.
Como se tornar um voluntário - Inicialmente, para mobilizar profissionais que tivessem interesse em atuar como colaboradores na Região Serrana, a Secretaria de Saúde e Defesa Civil se concentrou em fazer contato com instituições, como UERJ, UFRJ, Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Conselho Regional de Enfermagem do Estado do Rio de Janeiro (Coren-RJ) e empresas particulares, disponibilizando listas de voluntários. A partir daí, os profissionais se candidatam e a respectiva instituição controla a convocação interna. A secretaria alimenta um banco de profissionais colaboradores e encaminha esses voluntários cadastrados para os municípios, que ficam encarregados do contato final. O objetivo é apoiar os municípios na formação das equipes multiprofissionais itinerantes para atendimento nos abrigos. Até o momento, 110 profissionais voluntários de diversas áreas já percorreram municípios da Região Serrana, atuando no atendimento primário aos desabrigados.
- Atualmente, as ações estão concentradas nos municípios de Nova Friburgo e de Teresópolis, mas a idéia é expandir para as outras regiões atingidas, esclarece Andrea.
Profissionais que não estiverem vinculados a nenhuma instituição e que quiserem atuar como voluntários também podem se inscrever por meio de formulário disponibilizado no portal da Saúde (http://www.saude.rj.gov.br/). O procedimento adotado pela secretaria é o mesmo: os candidatos serão incluídos no cadastro único, que periodicamente é repassado aos municípios.
A demanda é por profissionais e técnicos de diversas áreas, principalmente assistentes sociais, psicólogos, clínicos, pediatras e professores de Educação Física.
 


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

EUA ordenam retirada de funcionários americanos no Egito

http://br.noticias.yahoo.com/s/01022011/83/eua-ordenam-retirada-funcionarios-americanos-no.html 

WASHINGTON - O Departamento de Estado americano ordenou a retirada de todos os funcionários da embaixada dos Estados Unidos no Egito, com exceção do pessoal necessário para atendimentos de emergência. Outros funcionários do governo americano também foram instruídos a deixar o país árabe, que é palco nesta terça-feira do maior protesto contra o presidente Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.
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O Departamento de Estado americano informou que continuará ajudando cidadãos dos EUA a sair do Egito, mas ressaltou que "voos podem ser afetados e o transporte para o aeroporto pode ser afetado devido aos protestos". Segundo a TV árabe al-Jazeera, pelo menos um milhão de pessoas se reuniram no centro do Cairo para pedir a saída de Mubarak do poder.
O governo dos EUA vem pressionando o presidente egípcio a fazer reformas para tornar o país mais democrático, mas os manifestantes exigem o fim de seu governo. Oposicionistas também cobraram a partida de Mubarak como condição para negociarem.